Recentemente, tem-se cogitado em utilizar a hemoglobina glicada como teste de rastreio ou mesmo de diagnóstico para o diabetes como um possível substituto do teste de glicemia de jejum e do teste oral de tolerância à glicose (TOTG). Entretanto, os estudos têm demonstrado que a limitação dessa proposta não está relacionada ao fato de que valores altos de A1C indiquem a presença de diabetes, mas, sim, ao fato de que um resultado "normal" não exclui a doença. Em outras palavras, a utilização da A1C no rastreio ou no diagnóstico do diabetes seria uma opção diagnóstica dotada de especificidade, porém, sem sensibilidade. Outro aspecto a ser considerado é o custo de realização do teste de A1C, que ainda é incompatível com sua utilização como teste de rastreio, do ponto de vista de economia da saúde.

No Congresso da American Diabetes Association, ocorrido em junho de 2009, em New Orleans, EUA, um comitê internacional de especialistas da ADA, da EASD e da IDF recomendou o uso do teste de A1C para o diagnóstico do diabetes, com base no fato de que esta é uma medida confiável dos níveis glicêmicos médios dos últimos dois a quatro meses, razão pela qual seria um melhor marcador do diabetes. Outra vantagem deste teste seria a conveniência e a facilidade proporcionada aos pacientes que não mais teriam de se submeter ao teste oral de tolerância à glicose.

 O ponto de corte do valor de A1C para o diagnóstico de diabetes foi definido em 6,5%, nível no qual os especialistas acreditam que seja suficientemente sensível e específico para identificar pessoas com diabetes. Valores de A1C entre 6,0% e 6,5% seriam indicativos de maior risco para o desenvolvimento do diabetes. É importante salientar que as entidades de diabetes como a ADA, a EASD e a IDF ainda não recomendaram oficialmente a adoção do teste de A1C como finalidade diagnóstica, embora sejam em princípio favoráveis a esta idéia.

 Para aferir a posição dos especialistas locais, a SBD realizou uma enquete entre seus associados, aos quais foi submetido o seguinte questionamento:

 O TESTE DE A1C PODE SER UTILIZADO PARA O DIAGNÓSTICO DO DIABETES?

As alternativas possíveis, detalhadas logo abaixo, definiram duas situações de discordância com a proposta e duas de concordância, evitando-se a alternativa de tendência central (não concordo, nem discordo) para que os especialistas consultados efetivamente se posicionassem de alguma forma sobre o assunto. As alternativas foram:

 1. DISCORDO TOTALMENTE. O uso da A1C para fins diagnósticos ainda não está padronizado e nem é oficialmente recomendado pelas entidades de diabetes.

2. DISCORDO PARCIALMENTE. Em nosso meio, o teste de A1C ainda nem é utilizado na extensão necessária para avaliação do controle glicêmico.

3. CONCORDO PARCIALMENTE. A indicação do teste de A1C por especialistas de três entidades internacionais de diabetes confere credibilidade à nova proposta.

4. CONCORDO PLENAMENTE. Estou convencido de que o uso do teste de A1C para fins diagnósticos é uma grande contribuição para a prática médica.

 Responderam à enquete 343 associados da SBD e os percentuais de respostas às diferentes alternativas estão resumidos na ilustração a seguir.

CONCLUSÃO

Na opinião dos especialistas brasileiros, as posições de concordância e discordância quanto ao uso da A1C como recurso de diagnóstico para o diabetes estão divididas quase que equalitariamente, com 48% dos respondentes concordando total ou parcialmente e com 52% deles discordando total ou parcialmente. Esse resultado nos leva a concluir que a utilização da A1C para fins diagnósticos ainda tem um longo caminho a seguir antes de ser definitivamente incorporada na rotina clínica dos endocrinologistas brasileiros.

 Referências Bibliográficas

1- Kilpatrick E.S. Haemoglobin A1c In The Diagnosis And Monitoring Of Diabetes Mellitus. J. Clin. Pathol. 2008;61:977-982.

2- Lee T.J. and Safranek S. A1C Testing in the Diagnosis of Diabetes Mellitus. Disponível em: http://www.aafp.org/afp/20060701/fpin.html. Acesso em 21 de novembro de 2008.

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Informações do Autor

Dr. Augusto Pimazoni-Netto
Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim e Hipertensão da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
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